sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Era uma vez em Tóquio (Tōkyō Monogatari, 1953)

Pois bem, para facilitar a vida, resolvi começar por Yasujiro Ozu, aproveitando que escolhi a simpática foto ali em cima para combinar com o título do blog. Afinal, é também o filme mais conhecido do diretor, e normalmente o único que a galera assiste para tirar uma onda de cinéfilo nas horas vagas, mesmo que ache a linguagem cinematográfica oriental a coisa mais esquisita do mundo. A história, das mais clichês possíveis (hoje, claro, porque na época deve ter sido sensacional), fala sobre um casal de idosos desocupados visitando os filhos que moram na cidade grande. E os desnaturados, que têm mais o que fazer em seu cotidiano alucinante do Japão pós-guerra, cagam e andam para eles. No meio dessa tristeza toda, a nora do filho mais novo, que morreu na guerra, é quem mais dá atenção aos pobres idosos.


Todas as análises que você encontrará por aí destacarão a simplicidade absoluta com a qual Ozu dirigia, resumindo-se a filmar estaticamente cenas de pessoas vivendo sem nenhum alarde, fazendo coisas que todo mundo faz, aquela coisa chata que é o mundo real. E é isso mesmo, não tem muito mais o que acrescentar. Posso ficar horas elucubrando sobre os trâmites de cada plano, o enquadramento perfeito, as elipses, mas, em suma, o que Ozu basicamente descobriu foi que investir MUUUUITO em plaaaanos-sequência loooooooongos, restando a você observar, observar, observar e observar até absorver a imagem, contemplando a, digamos, “existência metafísica” da coisa em sua totalidade.

No fundo, a câmera não importa, mas os diálogos e as ações exibidas. Admirador de filmes mudos, o diretor nunca escondeu que preferia realizá-los, de modo que a inevitável adaptação ao cinema falado acabou trazendo muito desse silêncio para a transmissão de suas mensagens. Se bem que muitos deviam preferir filmes mudos e nem por isso continuaram fazendo sucesso, né? Ozu mandou muito bem nesse sentido, então. Ou só deu uma sorte danada. Enfim, o revolucionário na proposta é a tentativa de captar a passagem no tempo de modo “real”, e isso fica ainda mais evidente quando pensamos nesse estilo como um contraponto às abruptas mudanças que o Japão sofria nos idos dos anos 50. Alguns cineastas, tipo o Wenders, defendem que essa seria a solução para nossa perda de capacidade de sentir as coisas no mundo atual, onde rola uma fragmentação da imagem cinematográfica em detrimento de um ritmo alucinante para um público insaciável.

Ao contrário do Kurosawa, acusado por muitos japoneses de “trair o movimento” quando resolveu ficar famosinho no ocidente, Ozu é pintado como a síntese do que significa a “refinada arte japonesa”, talvez porque, verdade seja dita, ele retratava como ninguém o cerne do típico cotidiano japonês, com seus valores e comportamentos. Mas, na real, isso não necessariamente é verdade, porque, convenhamos, o Japão vai muito além desse estereótipo idealizado. Agora, se tem uma coisa que Ozu representa com estilo, não sei se inconscientemente ou não, é a filosofia zen-budista. Assim como um monge nos mostra que a contemplação do mundo é a resposta para compreendê-lo em sua totalidade, Ozu nos pede paciência para observar e observar. Em seus filmes, bem como no zen-budismo, o “vazio” é elemento fundamental para a se criar significados em torno das infinitas interpretações que uma situação/cenário pode proporcionar. Em Era uma vez em Tóquio, a própria ideia de contrapor gerações totalmente diferentes remete à filosofia do conflito existente em um mundo de opostos, que tenta a todo instante encontrar um caminho do meio.

Nos filmes de Ozu, o que temos é um quadro em branco onde os atores interagem com liberdade (meio que num reality show, mas sem ganhar dinheiro no final), representando nada mais do que pessoas normais (algo que não acontece em reality shows), e acabamos por nos identifica justamente com essa naturalidade. São em geral elencos pequenos, com meia dúzia de gatos pingados, o que permite dar espaço de sobra durante as duas horas de filme para cada personagem passear para lá e para cá, desenvolvendo seu psicológico à vontade, atraindo nossa atenção gradativamente. Para complicar mais ainda nossa vida, 99% desses filmes tratam de algum aspecto da família japonesa, normalmente sob a iminência de alguma crise interna. E o que é mais universal neste mundo do que seres humanos angustiados ante suas famílias em risco? Muita coisa, talvez. Mas crise familiar é bem triste também.

Falando especificamente de Era uma vez em Tóquio, Ozu atrai o espectador com uma trama que faz nosso coração apertar assistindo à frieza com a qual os filhos tratam os pais. À medida que os pais são cada vez mais ignorados, cada vez mais fingem que está tudo de boa, com um sorriso que diz “não fiquem tristes, meus filhinhos, daqui a pouco batemos as botas e vocês não precisam se preocupar mais!”, porém, sutilmente, traduz de igual maneira a consciência de que se tornaram frágeis e logo encontrarão a finitude. No caso, ser ou não japonês é indiferente nesse estudo antropológico, e mais uma vez entra a questão da universalidade humana nos temas que o diretor escolhe. Pois, quando menos esperamos, lá estamos nós, pensando naquele vovô que ignoramos a vida inteira, e implorando para que esses filhos ingratos de olhos puxados deixem de ser tão babacas.

O motivo para essa distância toda é um Japão cujos habitantes se dividem entre velhinhos pré-guerra, que outrora viviam pacatamente, e jovens modernos que, influenciados pelos valores individualistas do ocidente enfiados com gentileza pelos americanos, têm agora uma vida frenética com os olhos sedentos por dinheiro. (Nem preciso explicar que a nora funciona como metáfora para as dores que a guerra trouxe, e de como ela compreende a desolação dos genros, né?) Mas nada, em momento algum, é melodramático ou joga na sua cara o que se passa. Os filhos aparecem um pouquinho em algum cômodo. Os pais têm um fugaz entusiasmo. Os filhos desaparecem. Os pais tentam se conformar, por meio de diálogos minimalistas, quase um vazio. O desenrolar dos acontecimentos nos revela como a vida passa, gira e continua, com pessoas nascendo e existindo, de modo que, quando a velhinha morre no final (gente, o filme tem mais de sessenta anos, tomem vergonha na cara, assistam e não reclamem de spoiler!), trata-se apenas de mais um elemento dentro dessa fluidez.

Por fim, tem uma cena famosa nesse filme que todo mundo adora citar, quando a caçula da família pergunta à viúva do irmão se a vida a vida é só decepção. Até o Moreira Salles copiou em Santiago. Daí, pensei em fechar o texto com ela para você não ficar triste ou passar vergonha se algum dia lhe perguntarem sobre. Mas fiquei com preguiça, então vai lá e assiste ao filme. Rá!

4 comentários:

  1. Texto brilhante! Alguém já te disse que você escreve como aquele colunista, o Arthur Dapieve?

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  2. Muito legal! Confesso que não conheço quase nada (ou nada) sobre a cultura japonesa!

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  3. Que legal!! Já assisti ao filme, mas ler sua crítica me deu muita vontade de revê-lo :)

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