Desta vez, sobre o crème
de la creme de cultura pop inútil, ou seja, mais inútil impossível! Sabe Godzilla, aquela série
infinita em que um ator fantasiado de lagarto gigante já enfrentou outros
atores fantasiados de lagartos gigantes? Aquele filme que todo mundo conhece,
mas nunca viu? Aquele que teve um remake lamentável ano passado com o Walter
White? Pois então, é dele mesmo que falaremos hoje! Mas do original, de várzea,
o Godzilla moleque, dirigido por Ishirô Honda, aquele feito menos de uma década após Hiroshima e Nagasaki,
o mesmo cujo pôster eu vi outro dia na Casa da Matriz, boate meia-boca da vida
noturna carioca, numa festa tão chata que só serviu mesmo para me inspirar a
escrever este post. Sinopse? Um réptil gigante é despertado durante
experimentos nucleares no mar japonês e decide sair da água para destruir o
Japão inteiro. Sensacional.
Para quem só conhece o filme por
meio da loucura referencial que ele se tornou ao longo dos anos, é sem dúvida
uma surpresa das melhores encontrar um terror psicológico que usa como plano de
fundo uma densa trama sobre tanto os traumas japoneses quanto os iminentes
receios da Guerra Fria. Surgido da própria permanência do inconsciente nuclear,
o monstrengo é pura e simplesmente uma metáfora para algo incontrolável capaz
de destruir um país inteiro. Seu poder sem limites é o mesmo que reside no
coração perverso da humanidade, cuja incessante capacidade destrutiva se
prolifera naturalmente.
Mais do que isso, a emersão de
Godzilla do interior do mar traz consigo uma abertura nas feridas japonesas,
como se expusesse a face do imperialismo doentio que na boca miúda a galera
começava a sacar, praticamente uma “DR” artístico-metalinguística com o público
desavisado achando que foi se divertir assistindo um blockbuster qualquer. E
que blockbuster! Você pode até rir do cara fantasiado com lagartixa, mas a
verdade é que foi o maior investimento da época, algo completamente fora dos
parâmetros existentes, uma ruptura que gerou muito do que veio após no que diz
respeito ao financiamento cinematográfico de entretenimento propriamente dito,
além de criar quase sozinho toda a indústria de monstros gigantes que veio
depois. É pouco ou quer mais?
Assim, lá vai o monstro sair do
interior para ligeiramente destruir o centro do país, o que nos faz pensar
sobre como os mitos do inconsciente humano muitas vezes se manifestam em ator
objetivos, sobretudo naqueles tempos em que a ciência doida das “raças superiores”
levou ao que levou. No filme, o criador da bomba entra num dilema existencial
pesado em relação à culpa que tem por terem despertado o monstro e, não à toa,
ao fim decide usar a mesma bomba para destruí-lo, ao mesmo tempo em que,
lançando fogo a todos os documentos da arma, vai ele próprio junto da explosão
que elimina de vez o lagartão. Poesia pura. Lógico, não supera a clássica cena
de luta em que Godzilla dá uma VOADORA nas peitas do King Kong, mas fazer o
quê? Ou nas outras trocentas refilmagens que o personagem ganhou. Inclusive nos
EUA, com uma famosa versão de 1998, que é tão bosta quanto as outras, embora
não tanto quanto a de 2014. E, claro, em todas as versões americanas, há um
convencional esvaziamento do discurso antibelicista. Conveniente. Mas é a vida,
né?

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