segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Perfil: Akira Kurosawa

Mais um novo entretenimento para vocês! Percebi que muitos ficavam perdidos quando eu saía citando diretores aleatoriamente, e resolvi começar a ter um espaço para falar da vida íntima de cada um deles para saciar as mentes curiosas. E tenho mais uma desculpa para encher linguiça enquanto não penso em filmes para colocar aqui. Na verdade, meu plano é intercalar, a cada dois filmes, uma postagem com entrevistas ou perfis. Aproveitando o gancho de Sonhos, para começar, falemos de Kurosawa, amado por muitos e amado por muitos outros!

Nascido em 23 de março de 1910 em Tóquio, desde jovem foi apaixonado por arte, tentando, em vão, entrar numa escola de pintura quando tinha dezoito anos, sendo recusado. Todavia, como todo bom japonês, seguiu em frente. A partir de 1936, foi diretor assistente por alguns anos até, em 1943, dirigir seu primeiro filme, Sugata sanshiro. Finalmente, em 1949, fez sucesso com Cão Danado, filmaaaaço que se vale muito de elementos do noir americano para contar a história de um policial em busca de seu revólver perdido.



É graças a Akira Kurosawa que hoje temos a oportunidade de conhecer melhor a cultura cinematográfica do Japão. A partir de Rashomin, nos anos cinquenta, o cara simplesmente explodiu, ganhou Leão de Prata, o Oscar, passou a mão na bunda de Hollywood, enfim, pintou e bordou. Logo depois, fez Os sete samurais, referência que até minha avó conhece, e cujo remake (que nessa época não tinha esse nome charmoso, ou seja, era só uma cópia descarada mesmo) americano, Sete homens e um destino, meu avô adorava. Por um punhado de dólares, outro western, também é “remake” de um filme de Kurosawa, Yojimbo.

Mas o fato é que ele fez amizade com gente da estirpe do Spielberg, George Lucas e Martin Scorsese (que até fez uma ponta em Sonhos, filme já descrito neste blog por este que vos escreve). Foi A Fortaleza escondida que inspirou George Lucas a fazer Star wars, O QUE NÃO É POUCA PORRA NÃO, meu amigo. Aliás, Kashemusha teve produção dos próprios Coppola e Lucas, sendo indicado mais uma vez ao Oscar de Filme Estrangeiro, sem vencer. Mas venceu a Palma de Ouro, que é o que realmente importa!

Fez diversas adaptações de clássicos da literatura mundial, sobretudo Shakespeare e Dostoiévski, O QUE TAMBÉM NÃO É POUCA PORRA NÃO. Trono Manchado de Sangue é uma adaptação de Macbeth, Homem bom dorme bem é uma adaptação de O idiota e Ran é uma adaptação de Rei Lear, sendo também o filme mais, digamos, grandioso do diretor, algo meio blockbuster, considerado por muitos “O” filme do Kurosawa, não sei por quê. Talvez por ser um mega épico ousado, uma puta produção.

Tanto é que foi indicado a algumas categorias do OSCAR, incluindo aí melhor diretor, embora só tenha ganhado em figurino. Além disso, explora bastante os conflitos políticos do Japão Feudal. Sim, acho que é o filme definitivo desse gênero. Mas muita gente acha chato e arrastado. Aliás, uma crítica recorrente aos filmes do Kurosawa são as enrolações que ele enfia no meio das tramas e as torna arrastaaaadas. Eu não acho, mas talvez porque seja apaixonado pelo Japão e não me importe nem um pouco em passar três horas vendo samurais cavalgando para lá e para cá.

Entretanto, por lá o japoneses adora acusá-lo de ter traído o movimento, jogam o cara abaixo do Botafogo, enquanto diretores mais cults como Mizoguchi e Ozu caem nas graças do povo. Kurosawa, coitado, chegou até a tentar suicídio quando não conseguiu juntar grana para um de seus filmes. O que pega, no caso, é que o cara sempre colocava em seus filmes muitas questões culturais pertencentes ao seu país e, por ter se popularizado, é como se, na visão dos japoneses, ele tivesse revelado ao mundo ocidental algum segredo proibidão.

Kurosawa chegou a fazer filme por Hollywood, sambando no recalque de seu povo, que continuava de mimimi pela popularidade do cara. Porra, ele fez filme com o Richard Gere! Isso é bizarro quando você para e pensa. E foi um de seus últimos filmes. Depois, veio ainda Madadayo, sobre um professor cujos alunos cismam de não deixá-lo se aposentar, embora os mais de quarenta anos de magistrado. Será que o próprio Kurosawa não estava pronto para isso? Poético, hein? Mas cinco anos depois ele bateu as botas, hemorragia cerebral. Fim.


FONTE: Something Like an Autobiography by Akira Kurosawa

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