Depois de Ozu e Kurosawa, vamos ao
segundo da amada trindade de diretores fodões japoneses: Mizoguchi! Se
Mizoguchi estivesse vivo (e fosse brasileiro), certamente iria curtir o tema da
redação do ENEM deste ano. Se estivesse no Facebook, seria aqueles velhinhos
que passam o dia inteiro compartilhando páginas aleatórias em seu perfil, mas
com conteúdo digno do jovem mais PSOL possível. Caras, na boa, fico
impressionado em quanto esse maluco era feminista em plano Japão de metade do
século XX! ANTES e DEPOIS da guerra. Tem que ter muito culhão para isso! Ou, no
caso... Bom, deixa para lá. Chega de nariz de cera. Existe tanto, mas tanto
filme que eu poderia usar dele como exemplo para falar disso, que fiquei horas
pensando em qual seria o ideal. Mentira, só escolhi o que eu vi há menos tempo,
(No caso, final do ano passado, mas juro que reassisti as partes-chave antes de
fazer esse post!). Neste, o que temos é a trajetória de Oharu, que na juventude
fazia parte da Corte do Imperador e, já senhora, acaba como pedinte e cortesã,
devido a um relacionamento.
Pois é, o próprio filme já começa te
dando um spoiler desgraçado, avisando que a trama pretende te levar para o
buraco, mas mesmo assim você assiste, com aquela esperança vaga baseada no
nosso amor aos finais felizes. E, no fim, a espiral de miséria é pior do que o
esperado. Mizoguchi o tempo todo oferece à personagem efêmeras vitórias que nos
iludem sem compaixão, humilhando a pobre da mulher. Putz, tem uma hora no filme
em que ela, já na merda, mas fingindo honra, renega um pedido de casamento,
mas, convencida pelo homem quando ele lhe mostra o quanto tempo de dinheiro,
ela, desesperada, aceita, e o filho da puta joga na cara dela que ela só
aceitou porque é uma vagabunda que quer dinheiro fácil. Ele ri, ri, ri, ri, e
ela fica com aquela cara de paisagem, sem poder negar a verdade. É bem cruel.
Nessa mesma cena, para piorar, o cara que a estava abrigando descobre essa
“vagabundagem” e expulsa a mulher de lá.
Aliás, o filme, em suma, é uma
sucessão dessas expulsões, da mulher que nunca encontra um lugar na sociedade, cujos
integrantes nunca lhe oferecem perdão, mas sim julgamento incessantes,
rotulando-a mais e mais. Não há direito de defesa, não há voz alguma que lhe
caiba. Ela tem um filho com um senhor feudal, mas o filho lhe é tomado para se
tornar um nobre que, mais à frente no filme, sequer olha para seu rosto quando
ela implora ajuda. Ele tenta ser monja, apagar o passado, mas, quando um homem
tenta estuprá-la, sua superiora no templo a culpa por tê-lo “atraído”, mais ou
menos o que metade dos brasileiros pensa por aí nos comentários do Facebook. E
por aí vai. A partir do sofrimento, Mizoguchi nos convoca a se colocar no lugar
da personagem, entender seu desespero e lutar com ela, do mesmo modo que fez em
outros filmes, como Senhorita Oyu (Oyû-sama, 1951) ou O Retrato da Senhora Yuki (Yuki
fujin ezu, 1950).
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