sábado, 21 de novembro de 2015

Oharu - A Vida de Uma Cortesã (Saikaku Ichidai Onna, 1952)

Depois de Ozu e Kurosawa, vamos ao segundo da amada trindade de diretores fodões japoneses: Mizoguchi! Se Mizoguchi estivesse vivo (e fosse brasileiro), certamente iria curtir o tema da redação do ENEM deste ano. Se estivesse no Facebook, seria aqueles velhinhos que passam o dia inteiro compartilhando páginas aleatórias em seu perfil, mas com conteúdo digno do jovem mais PSOL possível. Caras, na boa, fico impressionado em quanto esse maluco era feminista em plano Japão de metade do século XX! ANTES e DEPOIS da guerra. Tem que ter muito culhão para isso! Ou, no caso... Bom, deixa para lá. Chega de nariz de cera. Existe tanto, mas tanto filme que eu poderia usar dele como exemplo para falar disso, que fiquei horas pensando em qual seria o ideal. Mentira, só escolhi o que eu vi há menos tempo, (No caso, final do ano passado, mas juro que reassisti as partes-chave antes de fazer esse post!). Neste, o que temos é a trajetória de Oharu, que na juventude fazia parte da Corte do Imperador e, já senhora, acaba como pedinte e cortesã, devido a um relacionamento.


Pois é, o próprio filme já começa te dando um spoiler desgraçado, avisando que a trama pretende te levar para o buraco, mas mesmo assim você assiste, com aquela esperança vaga baseada no nosso amor aos finais felizes. E, no fim, a espiral de miséria é pior do que o esperado. Mizoguchi o tempo todo oferece à personagem efêmeras vitórias que nos iludem sem compaixão, humilhando a pobre da mulher. Putz, tem uma hora no filme em que ela, já na merda, mas fingindo honra, renega um pedido de casamento, mas, convencida pelo homem quando ele lhe mostra o quanto tempo de dinheiro, ela, desesperada, aceita, e o filho da puta joga na cara dela que ela só aceitou porque é uma vagabunda que quer dinheiro fácil. Ele ri, ri, ri, ri, e ela fica com aquela cara de paisagem, sem poder negar a verdade. É bem cruel. Nessa mesma cena, para piorar, o cara que a estava abrigando descobre essa “vagabundagem” e expulsa a mulher de lá.

Aliás, o filme, em suma, é uma sucessão dessas expulsões, da mulher que nunca encontra um lugar na sociedade, cujos integrantes nunca lhe oferecem perdão, mas sim julgamento incessantes, rotulando-a mais e mais. Não há direito de defesa, não há voz alguma que lhe caiba. Ela tem um filho com um senhor feudal, mas o filho lhe é tomado para se tornar um nobre que, mais à frente no filme, sequer olha para seu rosto quando ela implora ajuda. Ele tenta ser monja, apagar o passado, mas, quando um homem tenta estuprá-la, sua superiora no templo a culpa por tê-lo “atraído”, mais ou menos o que metade dos brasileiros pensa por aí nos comentários do Facebook. E por aí vai. A partir do sofrimento, Mizoguchi nos convoca a se colocar no lugar da personagem, entender seu desespero e lutar com ela, do mesmo modo que fez em outros filmes, como Senhorita Oyu (Oyû-sama, 1951) ou O Retrato da Senhora Yuki (Yuki fujin ezu, 1950).

Sobretudo, é de um pessimismo absurdo se comparado a obras suas como Rua da Vergonha (Akasen chitai, 1956), que, embora também cruel, trata a questão das mulheres com um pouquinho mais de esperança, entrelaçando as relações femininas como combustível para uma “união que faz a força”. Na trama, conhecemos a vida de prostitutas lutando para sobreviver no pós-guerra. Tanto ele quanto Oharu já são, diga-se de passagem, pertencentes aos onze aninhos que Mizoguchi ainda viveria depois de 1945. E é compreensível. No Japão, desde que os EUA ocuparam o país, as autoridades institucionalizaram a prostituição. Ora, não é para menos. Vale lembrar que os japoneses provavelmente bateram recorde de estupro em guerras durante seus embates (massacres) contra a China e outros vizinhos asiáticos. Imagina o cagaço dos inimigos vitoriosos se virarem contra eles agora? A solução, claro, era facilitar as coisas, “pedir” às moças que confortassem os Aliados e vida que segue. Isso tudo, claro, com um papo consolador de patriotismo. E assim caminha o mundo.

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