sábado, 14 de novembro de 2015

Sonhos (Yume, 1990)

Amigos, temos uma revolução à vista! Para os preguiçosos de plantão, decidi realmente diminuir o tamanho dos posts. Isso porque, claro, sou mais preguiçoso do que vocês. Sintam-se abençoados! A boa notícia é que dobrarei a quantidade de posts por semana, falarei sobre mais filmes e deixarei a vida de vocês menos monótona, uma vez que terão mais conteúdo inútil para ler no trabalho. Para a alegria da galera, finalmente largarei esse universo chato dos filmes obscuros e entrarei no maravilhoso mundo dele, do único, do inigualável humildão da cinematografia japonesa! Sim, senhoras e senhores, trataremos aqui de Akira Kurosawa.”Eba, vamos falar de Os sete samurais!”, pensa o leitor desavisado. “Uhull, vou aprender sobre as referências shakespearianas em Ran!”, desabafa efusivamente o estudante de cinema que está sem assunto na mesa de bar. Mas vamos falar aqui de Sonhos. E não aqueles que tive semana passada com uma certa modelo japonesa, mas o longa-metragem em cujo interior há oito pérolas curtas sobre as mais diversas esferas da cultura japonesa. Sim, essa foi a sinopse.




Em essência, a arte japonesa é feita de um material tão delicado que, parece, só mesmo os olhinhos puxados deles conseguem tocar sem que se espatife no chão. Tudo é sutil, fica flutuando, parece bobo, não tem nada.Você lê um haicai sobre um sapo pulando na água e espera que Fernando Pessoa se revire no túmulo. É preciso muito, mas MUITO esforço até entrar na cabeça de um japonês para entender do que se trata o espírito de sua arte. E, mesmo assim, nunca, NUNCA você entenderá mais do que 0,01% do que ela verdadeiramente é. Entretanto, Kurosawa tem uma característica que acho muito interessante: a falta de característica, sobretudo nas linguagens que utiliza. São filmes bem diferentes, com temas diferentes, embora, naturalmente, haja uma espinha dorsal invisível que marque a presença do diretor. É um autor eclético, sem um estilo definido, como as perspectivas de Kubrick, como o sangue de Tarantino ou como a lenta poesia sobre o cotidiano na qual se baseia Ozu. Aliás, Kurosawa é até o inverso da natureza contemplativa baseada na simplicidade que envolve a cultura japonesa; seus filmes são por vezes longos demais, arrastados, dependem da boa vontade do espectador. Ou seria eu que me acostumei demais ao Japão, tentando pagar de sensível? Porque, na real, o diretor é o mais popular cineasta oriental aqui no ocidente.

De qualquer modo, venho dizer que, neste filme, ele alcançou esse espírito que me encanta tanto, que sempre defendo, com todas as estranhezas e maluquices, atuações por vezes exageradas, caracterizações aparentemente toscas dos personagens, elementos marcantes da linguagem nipônica. Tratam-se de oito histórias curtas nas quais são contados sonhos que supostamente o diretor teve ao longo da vida. São histórias simples, sem muito aonde ir, em sua maioria valorizando a existência da vida com mensagens pró-natureza, revelando a plenitude que ela pode proporcionar ou questionando as destruições que podemos infligi-la. Nesse sentido, há também tendências a críticas quanto à guerra, os traumas japoneses do pós-bomba. Além disso, a genialidade maior é saber inserir nisso tudo fábulas da cultura nipônica, sem abusar dos sonhos para criar coisas absurdamente alopradas, como os quadros da Dalí, por exemplo. Ao contrário de suas obras-primas mais conhecidas, como Os sete samurais, Ran ou o próprio Rashomon, aqui são despretensiosos contos com toques de lirismo, apenas. É para ser assistido com paciência, sem pressa, tomando um chá verde.

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