Amigos, temos uma revolução à vista!
Para os preguiçosos de plantão, decidi realmente diminuir o tamanho dos posts.
Isso porque, claro, sou mais preguiçoso do que vocês. Sintam-se abençoados! A
boa notícia é que dobrarei a quantidade de posts por semana, falarei sobre mais
filmes e deixarei a vida de vocês menos monótona, uma vez que terão mais conteúdo
inútil para ler no trabalho. Para a alegria da galera, finalmente largarei esse
universo chato dos filmes obscuros e entrarei no maravilhoso mundo dele, do
único, do inigualável humildão da cinematografia japonesa! Sim, senhoras e
senhores, trataremos aqui de Akira Kurosawa.”Eba, vamos falar de Os sete samurais!”, pensa o leitor
desavisado. “Uhull, vou aprender sobre as referências shakespearianas em Ran!”, desabafa efusivamente o estudante
de cinema que está sem assunto na mesa de bar. Mas vamos falar aqui de Sonhos. E não aqueles que tive semana
passada com uma certa modelo japonesa, mas o longa-metragem em cujo interior há
oito pérolas curtas sobre as mais diversas esferas da cultura japonesa. Sim,
essa foi a sinopse.
Em essência, a arte japonesa é feita
de um material tão delicado que, parece, só mesmo os olhinhos puxados deles
conseguem tocar sem que se espatife no chão. Tudo é sutil, fica flutuando,
parece bobo, não tem nada.Você lê um haicai sobre um sapo pulando na água e
espera que Fernando Pessoa se revire no túmulo. É preciso muito, mas MUITO
esforço até entrar na cabeça de um japonês para entender do que se trata o
espírito de sua arte. E, mesmo assim, nunca, NUNCA você entenderá mais do que
0,01% do que ela verdadeiramente é. Entretanto, Kurosawa tem uma característica
que acho muito interessante: a falta de característica, sobretudo nas
linguagens que utiliza. São filmes bem diferentes, com temas diferentes,
embora, naturalmente, haja uma espinha dorsal invisível que marque a presença
do diretor. É um autor eclético, sem um estilo definido, como as perspectivas
de Kubrick, como o sangue de Tarantino ou como a lenta poesia sobre o cotidiano
na qual se baseia Ozu. Aliás, Kurosawa é até o inverso da natureza
contemplativa baseada na simplicidade que envolve a cultura japonesa; seus
filmes são por vezes longos demais, arrastados, dependem da boa vontade do
espectador. Ou seria eu que me acostumei demais ao Japão, tentando pagar de
sensível? Porque, na real, o diretor é o mais popular cineasta oriental aqui no
ocidente.
De qualquer modo, venho dizer que,
neste filme, ele alcançou esse espírito que me encanta tanto, que sempre
defendo, com todas as estranhezas e maluquices, atuações por vezes exageradas,
caracterizações aparentemente toscas dos personagens, elementos marcantes da
linguagem nipônica. Tratam-se de oito histórias curtas nas quais são contados
sonhos que supostamente o diretor teve ao longo da vida. São histórias simples,
sem muito aonde ir, em sua maioria valorizando a existência da vida com
mensagens pró-natureza, revelando a plenitude que ela pode proporcionar ou
questionando as destruições que podemos infligi-la. Nesse sentido, há também
tendências a críticas quanto à guerra, os traumas japoneses do pós-bomba. Além
disso, a genialidade maior é saber inserir nisso tudo fábulas da cultura nipônica,
sem abusar dos sonhos para criar coisas absurdamente alopradas, como os quadros
da Dalí, por exemplo. Ao contrário de suas obras-primas mais conhecidas, como Os sete samurais, Ran ou o próprio Rashomon,
aqui são despretensiosos contos com toques de lirismo, apenas. É para ser
assistido com paciência, sem pressa, tomando um chá verde.

Nenhum comentário:
Postar um comentário