Fiquei um bom tempo refletindo sobre
qual seria o primeiro filme do Miyazaki a ser exposto aqui. Porque, bom, o cara
só tem obra-prima, e todas falam, em alguma medida, de temas semelhantes, de
igual relevância embora com conceitos distintos. Daí, escolhi este porque...
Bom, porque é meu favorito, ponto final. E, se é meu favorito, é o melhor de
todos. É a síntese de tudo que o diretor tem a nos oferecer, tão
equilibradamente orgânico e sincero. Aqui, acompanhamos a jornada do príncipe
Ashitaka, um príncipe infectado por um demônio que lhe tirará a vida em pouco
tempo. Por isso, o guerreiro sai em busca da cura, alcançando um vilarejo que,
a fim de expandir suas atividades de exploração mineradora, vêm destruindo uma
floresta local, cujos animais, liderados pela tal Mononoke, espécie de
Pocahontas Modafocka, tentam resistir bravamente.
Miyazaki sempre se apropriou de
mitos, sobretudo japoneses, para nos fazer viajar sensorialmente através de
sons e cores. É tanta referência folclórica, religiosa, social e cultural, que
não estou com saco para escrever sobre. Até porque, assistindo ao filme, você
nem repara nisso, de tanta ação e aventura que tem. Como Miyazaki colocou tanta
coisa em duas horas de cinema para crianças? Não sei. Se bem que, esse
especificamente, nem é para criança, tamanha violência que tem. Mas também não
é para adulto, porque as relações sentimentais são totalmente ingênuas. Só
mesmo o Japão para fazer algo tão pouco comercial! Aliás, só mesmo Miyazaki. E,
nesse biscoito fino, ele alcançara um apuro estético inacreditável. Putz,
sério, compara com qualquer outro filme da Disney da mesma época. Pelo amor de
deus. Ou seja, um filme que não é para criança, mas que o maluco realmente
investiu um tempo pintando e bordando. (Mesmo que superado tecnicamente por
seus filmes posteriores. Mas aí, porra, não tem como, né? Animação é
exclusivamente dependente disso.) Sem contar que Joe Hisaishi, que não é bobo
nem nada, joga por cima uma trilha sonora cujo tema principal ele já ficou
careca de tanto tentar superar depois.
Sempre achei legal como o Miyazaki
não trata o mundo como algo em preto em branco, sem necessariamente colocar
vilões quando lida com o conflito homem/natureza. Nesse sentido, gosto de como
ele não é exatamente otimista nem pessimista, mas avalia os limites das
próprias utopias, nunca oferecendo por inteiro soluções para os infortúnios
expostos na tela. A líder da vila, Lady Eboshi, quer porque quer arrancar a
cabeça do deus da floresta, um ser representado por um veado com uma das faces
mais BIZARRAS da história do cinema. Definitivamente, Miyazaki não queria
agradar ninguém. O deus da floresta é a pura manifestação da vida, e todos os
seres ligados a ele parecem conectados por alguma teia invisível que bebem
dessa mesma fonte. Todavia, os cidadãos que habitam a vila são todos gente boa
e, logo descobrimos, dentre eles estão leprosos, vítimas justamente da
natureza, que, convenhamos, não é esse paraíso todo que idealizamos, e tem
mosquito para cacete.
Apesar de seus bons ideais, Mononoke
é impiedosa, um animal sem limites quando penetra a vila, matando se for
preciso e terminando com mais sangue no corpo do que o Conde Drácula em seus
melhores dias. E, apesar de seu traço vilanesco, Lady Eboshi nada mais quer do
que expandir seu avanço tecnológico, algo plenamente compreensível, ainda que
movido pela ganância humana, além de trabalhar em prol dos leprosos da cidade,
como que em busca de vingança contra a natureza. Aliás, tanto um lado quanto o
outro tem mulheres como protagonista, algo que, em se tratando de Miyazaki, é
chover no molhado. Nesse meio-termo, temos um protagonista cujo perfil de herói
clássico, com valores de certa forma românticos, tenta apaziguar ambos os lados,
ora ajudando Mononoke, ora ajudando a vilã. Chega um ponto na história em que,
inclusive, um dos personagens vira e pergunta “De que lado esse cara está????”.
Porra, o cara não se decide MESMO. Mas faz parte da sabedoria de Miyazaki de
que a paz é um sonho que esbarra muitas vezes (quase sempre?) na necessidade
triste da guerra, o maior esporte humano.

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