sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Princesa Mononoke (Mononoke Hime, 1997)

Fiquei um bom tempo refletindo sobre qual seria o primeiro filme do Miyazaki a ser exposto aqui. Porque, bom, o cara só tem obra-prima, e todas falam, em alguma medida, de temas semelhantes, de igual relevância embora com conceitos distintos. Daí, escolhi este porque... Bom, porque é meu favorito, ponto final. E, se é meu favorito, é o melhor de todos. É a síntese de tudo que o diretor tem a nos oferecer, tão equilibradamente orgânico e sincero. Aqui, acompanhamos a jornada do príncipe Ashitaka, um príncipe infectado por um demônio que lhe tirará a vida em pouco tempo. Por isso, o guerreiro sai em busca da cura, alcançando um vilarejo que, a fim de expandir suas atividades de exploração mineradora, vêm destruindo uma floresta local, cujos animais, liderados pela tal Mononoke, espécie de Pocahontas Modafocka, tentam resistir bravamente.




Miyazaki sempre se apropriou de mitos, sobretudo japoneses, para nos fazer viajar sensorialmente através de sons e cores. É tanta referência folclórica, religiosa, social e cultural, que não estou com saco para escrever sobre. Até porque, assistindo ao filme, você nem repara nisso, de tanta ação e aventura que tem. Como Miyazaki colocou tanta coisa em duas horas de cinema para crianças? Não sei. Se bem que, esse especificamente, nem é para criança, tamanha violência que tem. Mas também não é para adulto, porque as relações sentimentais são totalmente ingênuas. Só mesmo o Japão para fazer algo tão pouco comercial! Aliás, só mesmo Miyazaki. E, nesse biscoito fino, ele alcançara um apuro estético inacreditável. Putz, sério, compara com qualquer outro filme da Disney da mesma época. Pelo amor de deus. Ou seja, um filme que não é para criança, mas que o maluco realmente investiu um tempo pintando e bordando. (Mesmo que superado tecnicamente por seus filmes posteriores. Mas aí, porra, não tem como, né? Animação é exclusivamente dependente disso.) Sem contar que Joe Hisaishi, que não é bobo nem nada, joga por cima uma trilha sonora cujo tema principal ele já ficou careca de tanto tentar superar depois.

Sempre achei legal como o Miyazaki não trata o mundo como algo em preto em branco, sem necessariamente colocar vilões quando lida com o conflito homem/natureza. Nesse sentido, gosto de como ele não é exatamente otimista nem pessimista, mas avalia os limites das próprias utopias, nunca oferecendo por inteiro soluções para os infortúnios expostos na tela. A líder da vila, Lady Eboshi, quer porque quer arrancar a cabeça do deus da floresta, um ser representado por um veado com uma das faces mais BIZARRAS da história do cinema. Definitivamente, Miyazaki não queria agradar ninguém. O deus da floresta é a pura manifestação da vida, e todos os seres ligados a ele parecem conectados por alguma teia invisível que bebem dessa mesma fonte. Todavia, os cidadãos que habitam a vila são todos gente boa e, logo descobrimos, dentre eles estão leprosos, vítimas justamente da natureza, que, convenhamos, não é esse paraíso todo que idealizamos, e tem mosquito para cacete.


Apesar de seus bons ideais, Mononoke é impiedosa, um animal sem limites quando penetra a vila, matando se for preciso e terminando com mais sangue no corpo do que o Conde Drácula em seus melhores dias. E, apesar de seu traço vilanesco, Lady Eboshi nada mais quer do que expandir seu avanço tecnológico, algo plenamente compreensível, ainda que movido pela ganância humana, além de trabalhar em prol dos leprosos da cidade, como que em busca de vingança contra a natureza. Aliás, tanto um lado quanto o outro tem mulheres como protagonista, algo que, em se tratando de Miyazaki, é chover no molhado. Nesse meio-termo, temos um protagonista cujo perfil de herói clássico, com valores de certa forma românticos, tenta apaziguar ambos os lados, ora ajudando Mononoke, ora ajudando a vilã. Chega um ponto na história em que, inclusive, um dos personagens vira e pergunta “De que lado esse cara está????”. Porra, o cara não se decide MESMO. Mas faz parte da sabedoria de Miyazaki de que a paz é um sonho que esbarra muitas vezes (quase sempre?) na necessidade triste da guerra, o maior esporte humano.

Nenhum comentário:

Postar um comentário